Crítica: A jornada da heroína

Piero Sbragia é jornalista, documentarista e mestre em Educação, Arte e História da Cultura. Autor do livro “Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade”, lançado em 2020 pela Chiado Books.

C. G. Jung dizia que o sonho é o mito personalizado e, nos sonhos, as formas são distorcidas pelos problemas particulares do sonhador ou da sonhadora. Na psicanálise e no estudo das mitologias, heróis ou heroínas são aqueles que conseguem vencer as limitações históricas pessoais. O filme “O Pergaminho Vermelho” é justamente sobre essa jornada de provações.

A pequena Nina é apresentada de forma arrojada. Em cima do skate, destemida, livre, sem medo de descobrir novos desafios. Até porque lugar de mulher é onde ela quiser. Contrastando com essas características, dentro dela reside um medo terrível: a possibilidade da separação de seu pai e de sua mãe.

Nina se recusa a aceitar a realidade dentro de sua casa. Até que um redemoinho, daqueles que tiram tudo do lugar, acaba chamando nossa heroína à aventura. Ela foge de casa, abandona a cidade e parte para o refúgio da natureza. Na floresta, sempre curiosa, cai em um buraco. Depois de fazer novas amizades e descobrir seres mágicos, encontra sua verdadeira missão: a busca pelo pergaminho vermelho que vai mostrar o caminho de reconexão com ela mesma.

No meio da jornada dela não havia uma pedra, mas sim Lord Dark, o Senhor dos Pesadelos. O pergaminho vermelho nas mãos dele pode ser um problemão. Nina logo percebe que é a figura central de conexão entre os dois mundos: o real e o ficcional. Cabe a ela iluminar as sombras para encontrar uma maneira de voltar para casa. Claro que sozinha ela não vai conseguir muita coisa. A ajuda é coletiva: desde o músico andarilho até o mestre ancião, todos alertando Nina sobre a importância de pensar no coletivo e nas ações em comunidade. “Temos que fazer isso juntos”, diz a pequena em certo momento.

Quando se vê em perigo, Nina consegue perceber que não adianta fugir dos problemas e se isolar de tudo e de todas e todos. Sua descoberta vale ouro: não há felicidade maior do que ter liberdade para viver do jeito que ela é. Com qualidades e defeitos, o importante para Nina na jornada dela é ter coragem para assumir as imperfeições e vulnerabilidades. Negar a realidade é perigoso demais para ela, sempre com o Senhor dos Pesadelos à espreita. Lord Dark possui feridas mal curadas, ressentimentos. Foi tomado precocemente pela dor e pelo ódio. Não há, da parte dele, empatia por Nina. Mas a recíproca não é verdadeira, já que ela consegue se colocar no lugar de seu antagonista na história por diversas vezes.

Durante todo o filme, Nina tenta compreender o comportamento de quem se relaciona com ela. É nos silêncios e na escuta ativa que ela busca a solução para os problemas. Nina ouve mais do que fala.

Podemos observar semelhanças entre a jornada da heroína e essa nova sociedade que se constrói a partir de uma pandemia. Tanto para Nina quanto para nós, não há sentido algum no indivíduo apenas. Somos quem somos em grupo! Em coletivo! Mesmo que a publicidade nos diga o contrário, mesmo que o mercado financeiro nos diga o contrário, mesmo até que o capitalismo neoliberal nos diga o contrário. O mundo não funciona só comigo. O mundo funciona com a gente. No plural!



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