Tem identidade colombiana nas telas

Primeiro longa de animação dirigido por uma mulher na Colombia, “O Livro de Lila” teve pré-estreia nacional em Florianópolis na 17ª Mostra de Cinema Infantil

 

Levado às telas do cinema em 2017 depois de quase oito anos de produção, “O Livro de Lila” é o primeiro longa-metragem de animação dirigido por uma mulher na Colômbia. O filme conta a história de Lila, uma menininha que vive no mundo mágico de um livro e sai, por acidente, para o mundo real. Correndo o risco de desaparecer, ela terá que recorrer a Ramón, o menino que deixou de ler o livro de Lila. Uma metáfora sobre o valor da memória, dos livros e do crescimento em meio às novas tecnologias.

Dirigido por Marcela e produzido por Maritza, a animação tem coprodução do Uruguai, já participou de 30 festivais pelo mundo e foi contemplada com oito prêmios nacionais e internacionais, reconhecimento pelo roteiro, desenvolvimento e produção. O cenário é inspirado em Cali, cidade colombiana onde as produtoras cresceram e que tem tradição na história da cinematografia colombiana. O orçamento de “O Livro de Lila” foi de um milhão e meio de dólares, sendo que parte significativa da cifra foi obtida por meio de fundos de incentivo e fomento ao desenvolvimento do cinema e das artes.

Exibido com dublagem ao vivo na abertura da 17ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, que acontece até 8 de julho no Teatro Governador Pedro Ivo Campos, no Centro Administrativo do Governo do Estado, o filme teve boa repercussão entre o público da mostra. “O filme traz uma nova realidade para o brasileiro, é uma história de fantasia com traço latino. Não é aquela coisa de fada e princesa. Tem originalidade”, avalia Valmor Fritsche, jornalista e editor. O filho Theo, de 4 anos, achou o filme “irado!”.

Marcela Rincón, diretora do filme, falou com a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis sobre o processo de criação, produção e distribuição do longa.

Como surgiu a ideia do filme?

Marcela Rincón: Esse filme surgiu de uma mescla de inquietudes e recordações, lembranças e nostalgias minhas como autora. Tenho um grande carinho pelos meus livros de infância, que foi um elemento importante da minha vida e com os quais aprendi muitas coisas. Tenho ainda uma experiência pessoal, com meu irmão menor e a nossa infância é marcada por muitas diferenças. Passei minha infância correndo no bosque, no rio e no campo. Já a infância do meu irmão foi completamente distinta. Ele sempre passava seu tempo jogando em frente ao computador, com outro tipo de encantamento. Esses foram também elementos detonantes que me provocaram uma inquietude profunda, uma paixão por construir a história de Lila.

 

O que encontraremos de diferente em “O Livro de Lila”?

Marcela Rincón: É um filme narrado desde a Colômbia e todos os espaços que se recriam no filme são reproduções de espaços naturais que compõem a nossa geografia. Isso me parece algo muito especial, porque temos na Colômbia uma trajetória de produção de curtas-metragens de animação e é algo novo que vejamos em um filme de animação nossos traços e nossa identidade. Por outro lado, o filme é protagonizado por uma mulher, por uma menina, e tem personagens femininos muito importantes. É notório essa abordagem de gênero no filme e que trata de sair desses estereótipos e personagens femininos, dando voz a uma menina valente, sonhadora, que se arrisca e luta por seus sonhos. Isso me parece que é algo muito valioso e muito importante. A meu ver, Lila consegue passar uma mensagem filosófica com uma dimensão profunda também para os adultos. É uma característica do filme, que permite diferentes leituras. Outro fator que me parece importante, que está por trás do filme, é que este é o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher na Colômbia. É algo muito importante para a nossa cinematografia nacional e para a luta da participação das mulheres na produção audiovisual. E isso também é muito valioso.

 
O filme foi produzido com apoio de fundos de financiamento públicos, desde o roteiro. Gostaria que falasse um pouco a respeito do financiamento e dos incentivos que tiveram.

Marcela Rincón: O desenvolvimento do filme durou oito anos e recebemos, no total, sete prêmios para sua realização, do Fundo para o Desenvolvimento Cinematográfico, Ministério da Cultura, da Prefeitura de Cali, além do apoio de diferentes instituições, como a Sinfônica Nacional de Colômbia, Centro Ático, Ministério das Tecnologias e contribuições independentes. Ao mesmo tempo, foi um projeto bastante austero – uma vez que animação é algo muito custoso de fazer -, e foi um projeto de insistência de toda a equipe de trabalho que soube levar o projeto em momentos que parecia difícil de sustenta-lo.

 

Como falar com as crianças sobre fantasia e de uma forma atraente tratar de assuntos que são transformadores para as infâncias, como a importância da memória e da leitura?

Marcela Rincón: Tentei construir uma grande aventura. Para mim, o mais importante foi abordar uma aventura em que as crianças se emocionassem e sentissem atraídas. Em meio à essa aventura, tratei de introduzir esses elementos profundos, como a memória, a fantasia, a leitura, que me parecem temas importantes de se desenvolver. Acredito que as crianças tenham se conectado bem com essa aventura que vive Lila e vivem de uma forma muito honesta todos os momentos pelos quais os personagens transitam e se identificam com certos elementos emocionais do filme que me parecem muito potentes. Com respeito à fantasia, as crianças tem um grande poder de fantasiar e imaginar, como diz Lila no filme, e elas também se sentem conectadas aos personagens que falam o seu mesmo idioma.
Como avalia a produção colombiana no contexto latino americano?

Marcela Rincón: A produção colombiana de cinema é abundante e de boa qualidade. Se falarmos de animação, estamos um pouco renegados se comparado a outros países latino-americanos, como Brasil e Argentina, que têm mais produções nesse mercado. No contexto colombiano, “O Livro de Lila” é o oitavo longa-metragem de animação na história do cinema nacional, o que é pouco para criar uma trajetória, uma experiência. Mas há muitas empresas, projetos e pessoas com vontade de trabalhar nesse campo e me parece que estamos indo por esse caminho.
Qual aporte faz um filme como “O Livro de Lila” para o cinema colombiano?

Marcela Rincón: Considero que o filme contribui para a ainda pequena história do audiovisual animado colombiano. Além disso, a história faz um aporte muito distinto de tudo o que já foi feito anteriormente em nosso país. É um filme que se dedica também à parte artística e é o primeiro filme de animação pensado para o público infantil e um filme de fantasia, o que ainda é pouco abordado na Colômbia. Por outro lado, o filme foi feito no ocidente colombiano, em Cali, reconhecido por sua ampla tradição cinematográfica mas sem antecedentes na produção de animação. Outro aporte que destacaria e que já mencionei, é marcar uma referência como o primeiro filme de animação dirigido por uma mulher no nosso país e resgatar a nossa identidade, pluralidade e cultura. Além disso, “O Livro de Lila” deve posicionar o cinema de animação colombiano em diferentes festivais e cenários no mundo, onde não tínhamos participação.
Por fim, tens acompanhado a produção de cinema infantil no Brasil? Qual sua opinião a respeito da produção brasileira?

Marcela Rincón: Lamentavelmente não conheço muito a produção cinematográfica infantil brasileira. Um filme que me encantou foi “O menino e o mundo”, de Alê Abreu (2014), que considero um filme lindo, fascinante, com uma proposta artística incrível e que foi um dos referentes para a produção do nosso filme. Como se vê, não cnheço muito a produção do Brasil. Estamos tão próximos, em um mesmo continente, e é tão difícil ter acesso a conteúdos de nossa região.

 

Texto: Manoela de Borba




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