“Sou um feiticeiro”

Na tela, os curtas do diretor francês Michel Ocelot. Nas poltronas, dezenas de pessoas encantadas com a delicadeza de sua obra. E nas vozes que deram vida aos personagens, a dedicação dos atores catarinenses que fizeram a dublagem ao vivo dos filmes apresentados. No meio do público, o diretor acompanhava cada detalhe. Tudo aconteceu em harmonia, no Cinema do Centro Integrado de Cultura, tradicional espaço cultural da Capital catarinense, na noite de sexta-feira, 10 de julho.

Ocelot, pela primeira vez na América Latina e o grande homenageado da 8 ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, se entusiasmou com a dublagem. Os atores Gláucia Grígolo, Ana Paula Possapi, Igor Lima e Malcon Bauer receberam elogios do cineasta pela interpretação nos filmes Les 3 Inventeurs, La princesse insensible, La belle fille et le sorcier e L’Invité (aux noces d’Azur et Asmar). Todos os dubladores formaram-se na técnica em oficinas na Mostra de Cinema Infantil. Mariana Nunes, que fez a versão inédita dos curtas para a língua portuguesa, também recebeu o reconhecimento pelo trabalho.

Depois da sessão, Ocelot participou de bate-papo com o público. Respondeu perguntas e mostrou-se feliz entre os brasileiros. “Eu sou realmente um feiticeiro (sorcier), pois transformo nada em histórias mágicas”, afirmou.

Criador de filmes como Kirikou e a feiticeira e Azur e Asmar, o diretor defendeu a simplicidade e a importância de respeitar as línguas nativas. “As crianças sabem que na vida real não existem legendas”, explicou. Ocelot costuma acompanhar de perto o processo de tradução de suas obras, tentando garantir o máximo de fidelidade à produção original.

Um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando Ocelot contou a história da produção de L’Invité (aux noces d’Azur et Asmar). O diretor recebeu uma carta de crianças de Beirute, no Líbano, pedindo a continuação do filme Azur e Asmar. “Eles mandaram um roteiro pronto, com 15 minutos sobre como seriam os casamentos dos personagens principais de filme. A carta me tocou muito e, mesmo sabendo das dificuldades de produção e distribuição de um filme como este, decidi fazer. Eram crianças que viviam num contexto de violência e mesmo assim conseguiam sonhar”, contou.

Vários artistas colaboraram gratuitamente no que resultou no filme L’Invité. “O que não poderia ser produzido, foi produzido. O que não poderia ser distribuído, foi distribuído”, enfatizou. O cineasta contou que exibiu o curta para as crianças de Beirute e que, neste momento, percebeu o quanto o esforço valeu a pena.

Confira entrevista completa com o diretor Michel Ocelot:

Mostra: Qual foi sua sensação ao assistir seus filmes dublados ao vivo?

Ocelot: Eu costumo assistir aos meus filmes em versão dublada, mas essa é a primeira vez que eu assisto a uma dublagem em tempo real, podendo ver os quatro atores, bem iluminados, no fundo da sala. Isso me toca, porque normalmente quando se faz uma dublagem isso leva tempo, você recomenda uma cena curta, mas não dublar o filme inteiro numa tacada só! Então eles realizaram uma façanha, até mesmo porque os dubladores me surpreenderam cantando a vinheta da série A Princesa Insensível. Normalmente, ela não é traduzida, é apenas uma cantiga, mas eles o fizeram. Não somente ficou bem traduzida como bem cantada. No começo, uma atriz usou voz de menina como no original e em seguida no início de cada novo episodio os quatro dubladores cantaram com voz de menininha, inclusive os dois homens. Foi muito bonito!

Mostra: O senhor comentou que prefere não participar de festivais para não “desconcentrar”, que gosta mesmo da solidão e de ficar em silêncio, no atelier, para trabalhar. Como foi aceitar o convite da Mostra no Brasil?

Ocelot: Um mistério… Eu conheci algumas pessoas, que foram me ver em Paris e me convidaram com bastante antecedência. Todo ano, várias pessoas me convidam, mas eu nunca vou. Um dia me dei conta de que às vezes é preciso aceitar um convite e aconteceu um pequeno milagre: várias cidades latino-americanas continuavam solicitando minha presença e as suas datas combinavam um pouco. Eram pessoas em boas relações umas com as outras e que acabaram organizando juntas minha turnê na América do Sul. Graças ao contato humano que eu acabei vindo. Eu procuro preservar meu lado humano, não somente trabalhar mas também conhecer pessoas, porque gosto disso. Eu trabalho para as pessoas. Se elas não existissem, eu não faria filmes. Eu estou muito feliz por ter vindo.

Mostra: Como foi sua experiência com o público depois das sessões aqui na Mostra de Florianópolis? As crianças estavam bastante interessadas em detalhes de seus filmes e também na oficina de animação, o senhor concorda?

Ocelot: Na verdade, crianças são iguais em todo lugar. Quando você lhes traz algo, elas se interessam muito, se aplicam no que fazem, não só comigo elas se empenharam. Elas entendem tudo e aceitam recomeçar quando ainda não está bom; então elas entenderam como se faz. Depois, houve uma oficina com jovens; eles ouviam muito respeitosamente o que eu lhes transmitia – até demais. De noite, fiz uma palestra junto ao público da Mostra. Foi muito intenso. Ninguém saía da sala, e o papo continuava solto. Foi um momento muito bonito. Me faz muito bem falar com pessoas, longe de meu país; pessoas estas que passam a ser do meu país, e eu viro o seu conterrâneo. Me sinto muito a vontade aqui e agradeço a todos que me convidaram e a possibilidade que me foi dada de poder estar aqui.

Mostra: Como podemos decifrar o seu trabalho? Qual o seu objetivo com os filmes?

Ocelot: Me parece que tenho o poder de criar beleza e eu me utilizo disso. Se eu puder trazer minha contribuição, por menor que seja, ao mundo… uma gotinha de óleo que vire mancha… eu vou fazer. Tenho esse poder de trazer beleza e proporcionar prazer; e esse é o meu prazer. Trabalho com pessoas que, assim como eu, são apaixonadas por sua profissão e querem também oferecer algo às pessoas. Por um lado quero proporcionar um momento mágico Não quero encantar vocês não, mas por detrás desse encanto quero se possível trazer algo, uma descontração frente às coisas da vida, uma capacidade de abrir vocês, de não precisar ser tolerante. Não falemos de tolerância, trata-se apenas do prazer de viver, do prazer de conhecer pessoas diferentes. Alguns dizem que meus filmes são panfletos em prol da tolerância. Não é nada disso: eu faço apologia do prazer. E essas diferentes pessoas, comidas e jóias me agradam! O fato de existirem barreiras a se transgredir me agrada e, penso eu, agrada a todos. Acho que podemos nos amar ainda mais por cima dessas barreiras. São essas as pequenas coisas que quero veicular.

Mostra: Qual o seu desejo ao repassar alguma mensagem às crianças?

Ocelot: O que eu desejo a toda criança, seja ela de Florianópolis ou de qualquer lugar, é que lhe aconteça o que me aconteceu: saber o que ela quer fazer, persistir e enfim realizar seu objetivo, seu sonho.
Fotos: Cleide de Oliveira



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