
A cineasta Lucia Murat na sessão especial para o Dia do Professor na Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. (Fotos Carolina Arruda)
A Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis tem uma trajetória de valorização da educação e dos profissionais que atuam na área. No Dia do Professor, comemorado na quinta-feira (15), a programação destacou o tema com a exibição do longa-metragem “Hora do Recreio”. Dirigido por Lucia Murat, o filme lança um olhar sensível e crítico sobre a realidade educacional brasileira a partir do cotidiano de jovens estudantes de comunidades do Rio de Janeiro. A sessão foi seguida por um bate-papo entre a cineasta e o público, com mediação de Consuelo Lins, pesquisadora sobre cinema e documentário e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A obra mistura documentário e ficção, característica presente na filmografia de Lucia Murat desde os anos 1980, como observou Consuelo Lins. O filme trata de questões que atravessam o cotidiano dos jovens, como racismo, feminicídio, violência urbana e a necessidade de trabalhar para contribuir com a renda familiar. O projeto começou a ser desenvolvido em 2017, a partir de conversas com professores. O plano inicial previa as gravações dentro das escolas, o que não foi totalmente possível.
“Escolhi introduzir essas dificuldades no filme”, contou a diretora, sobre o fato de incluir no roteiro as várias tentativas de obter autorização dos órgãos públicos para filmar nas escolas, as respostas negativas ou adiadas e também o acompanhamento das notícias sobre operações policiais que levam ao fechamento das unidades de ensino.

Depoimentos fortes
O longa já abre com impacto em uma das escolas em que não pôde filmar. Os alunos foram convidados para uma ‘sala de aula cenográfica’, com a participação de uma atriz no papel de professora que conduziu a discussão. “Eu estava muito preocupada o tempo todo. Primeiro achei que eles ficariam intimidados, e foi ao contrário, talvez justamente porque não estavam na escola deles”, relatou Murat. Os depoimentos dos estudantes sobre situações de feminicídio, violência e racismo são fortes. Porém, o filme não coloca os jovens na condição de vítimas. Foi isso, contou a diretora, que chamou a atenção fora do país, especialmente ao receber a Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim de 2025.
O filme ainda acompanha a preparação de uma peça baseada no romance “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto, obra que aborda também a temática do racismo e da desigualdade social. “Na leitura que fizemos, mais uma vez eles deram a saída”, disse a diretora ao perceber que as discussões entre os jovens durante os ensaios deveriam fazer parte da narrativa. Murat contou com o apoio dos grupos de teatro comunitário, como o famoso Nós do Morro, sediado no Vidigal, o Vozes, do complexo do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo e o Instituto Arteiros, localizado na Cidade de Deus.
No bate-papo com o público, formado majoritariamente por educadores, Lucia Murat ressaltou a atuação dos professores. “O que mais me impressionou foi a quantidade de professores incríveis, com tanta dedicação. Dentro desse caos todo, tem gente batalhando por um mundo melhor”, finalizou.



