Vanessa Fort defende cinema sem estereótipos

Vanessa Fort defende cinema sem estereótipos


Há dez anos atuando com produção para crianças, Vanessa Fort, coordenadora geral e editorial do ComKids, iniciativa que apoia e promove a criatividade e a inovação dedicadas à infância e juventude, defende o cinema que desconstrói estereótipos e trata com profundidade de temas que envolvam a sexualidade e os papéis de gênero. Ela é editora do curta Meninos e Reis, exibido no último domingo, 3 de julho, na Mostra de Cinema Infantil. “Cinema é poesia, mas é também um ato político de resistência a normas”, afirma.

Formada em audiovisual e antropologia cultural, Vanessa é coordenadora da versão iberoamericana, que acontece em São Paulo, do Prix Jeunesse Internacional, um dos maiores prêmios da TV infantil mundial, realizado na Alemanha. How Ky turned into Niels, filme vencedor do prêmio “Igualdade de Gênero”, traz uma criança que não se identifica com o gênero masculino e conta para a mãe que vive infeliz como menino, ao mesmo tempo em que não gostaria de desapontá-la. “A gente sente a dor do menino de ter que revelar à mãe. É muito dolorido, precisamos falar dessas dores”, afirma a roteirista que também integra o Grupo de Mulheres do Audiovisual, articulado no SP Cine.

Atualmente, é colaboradora da série Sobre borboletas e sereias, da pernambucana Bárbara Cunha, que trata de maneira sensível e poética o universo de crianças transgêneros. “É preciso subverter normas e propor outra relação de beleza, no sentido de levar uma experiência cinematográfica que faça o público sentir empatia pelos personagens”, diz.

No longa A Família Dionti, de Alan Minas, exibido no último fim de semana da Mostra de Cinema Infantil, a conselheira tutelar questiona a capacidade do personagem de cuidar sozinho de seus filhos, mesmo sendo ele um homem amoroso e dedicado, trazendo o olhar da sociedade sobre os papéis de gênero e as limitações impostas a cada um. “A sociedade precisa discutir as várias constituições de famílias, que envolve famílias só com pai, com dois pais, duas mães, enfim”, analisa a roteirista depois de assistir à ficção de realismo fantástico.

Diferente do que está colocado no senso comum, a infância não é uma “poesia idílica”, mas sim um período cheio de conflitos. Vanessa lembra que desde muito cedo teve dificuldade de se encaixar nos rótulos sociais e leva essa discussão para seus trabalhos de curadoria, roteiro e consultoria. Para ela, o cinema para as crianças tem a função de aliviar esse mundo que os adultos impõem e ajudá-las a transcenderem. “As normatizações são contra a nossa natureza. O modo como nos enquadram nos distancia da essência do que a gente é. Tenho preocupação com uma visão que acolhe e que dê conta da beleza da narrativa que é contada e sentida.”

A violência contra as mulheres cada vez mais presente nos noticiários tem colocado o movimento feminista em evidência e a necessidade de questionar injustiças. “O feminismo busca um espaço de interlocução igual. É um debate que precisar estar atrelado à discussão sobre ética e exige um olhar filosófico sobre a vida, direitos sociais e humanos.”

Propor o respeito aos diferentes, para além de incluir meninas e negros no elenco, é uma postura de mundo que se reflete na busca de intenções e motivações para as escolhas. Mesmo que no cinema voltado à infância o diálogo com a criança seja simples, a proposta deve ser profunda e envolver personagens complexos, como defende Vanessa. Um filme é como se fosse uma caixinha que guarda segredos a serem descobertos: “É preciso dar espaço para cada um abrir a caixinha e percebê-la do seu modo.”

 

Fotos: Kélen Oliveira

Deixe seu comentário