Pintura que liberta

Uma tela gigante com o tema Eu no mundo está sendo produzida no Centro Integrado de Cultura (CIC) por 15 crianças do Projeto Esperança, vindas da comunidade Chico Mendes, na parte continental da capital. Elas participam da oficina Palavra Pintada, que integra a 7ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis.

Ministrada pela artista Sofia Camargo e pelo percussionista e massagista Marcelo Melão, a oficina motiva as crianças a expressar o que pensam de si mesmas e do mundo, por meio da dança, do canto e do conhecimento do próprio corpo. O resultado do trabalho será apresentado ao público na abertura do show do Grupo Palavra Cantada, que vai encerrar a Mostra, no dia 13 de julho. As crianças do Projeto Esperança, da Chico Mendes, são parceiras da Mostra desde o início. Nas edições anteriores, já participaram de oficinas de vídeo, animação e arte.

Sofia Camargo divide seu tempo entre o Brasil e Berlim, na Alemanha, e tem em seu currículo aprendizagens diversificadas nas artes visuais e plásticas, bem como projetos itinerantes realizados em escolas, museus e instituições para crianças. Como artista, já expôs no Centro Cultural São Paulo; em Fuerteventura, na Espanha; na October Galley, em Londres, Inglaterra; no Museum Dahlen, Berlim, entre outros lugares. Na entrevista abaixo, Sofia conta sobre a origem do projeto, como é realizada a oficina e de que forma a arte estimula o crescimento saudável dessas crianças. Confira:

O que é o projeto Palavra Pintada?

É uma homenagem ao Palavra Cantada. Meus filhos, quando eram pequenos, escutavam as músicas deles e isso marcou nossa vida pra sempre, é um trabalho puro e bonito. A partir daí surgiu a idéia de dar continuidade, com as crianças do bairro Chico Mendes, ao trabalho que eles começaram. Com a mesma pureza, o mesmo amor e dedicação pra crianças que nem sempre têm a estrutura familiar ideal.

Como funciona a oficina?

Observação, fundamentalmente. A gente tem um planejamento diário, só que nem sempre funciona – na maioria das vezes não. O interessante é que com a nossa bagagem a gente fornece as condições ideais pras crianças fazerem o que elas querem de verdade. Se o objetivo é a auto-estima, a verdade e profundidade do trabalho está em reconhecer quem a criança é emocionalmente, que tipo de característica ela apresenta e quais as necessidades interiores básicas. Se é de extroversão, se é de introversão, um canta melhor, outro toca melhor, outro dança melhor, outro pinta melhor, mas todo mundo tem alguma coisa diferente. Então, reconhecendo as diferenças dentro da individualidade de cada um, a gente usa essa bagagem pra que elas percebam que estão fazendo uma coisa que é verdadeiramente delas. O objetivo é que criem, não que façam uma repetição do que está sendo ensinado. Esse processo pedagógico é baseado no trabalho de um neurologista alemão chamado Spitz, que explica o seguinte: com autoridade a criança aprende da mesma maneira que com criatividade. A diferença é que com autoridade ela aprende, mas detém a informação de que não é capaz de resolver os problemas dela sozinha, mas com criatividade ela exerce a criação, então tem um registro cerebral para o resto da vida de que ela é capaz de resolver seus problemas. Isso é fundamental.

A gente viu que as crianças adoram receber massagem. Como a oficina trabalha a questão corporal?

Body painting e essas coisas todas que eu vou pegar com eles numa fase teórica mais adiante – eles vão pintar as palavras essenciais da vida deles na tela gigante – exercem uma influência muito grande na arte. A gente pinta com tudo. A arte é tudo de dentro que sai no processo pictórico. É a condição emocional, é a sensibilidade do momento e é o corpo. Um corpo saudável pinta coisas saudáveis. Um corpo feliz, alegre, que dançou e foi massageado, pinta de uma maneira muito mais leve. Vocês viram agora eles escorregando na tinta. Como um deslize. Isso dá um prazer e fica impregnado. A pintura é uma fotografia da alma. É pra mostrar que essas crianças que têm uma vida difícil têm muita alegria, muita criatividade, muito poder e talento dentro delas. A gente puxa por aí pra mostrar tudo de ouro que existe dentro de crianças que vivem em grupos de risco. É para a sociedade ficar atenta a isso e apoiar cada vez mais essas crianças especificamente. Olha quanto ouro tem aí. Elas só precisam de estímulo, nada mais.

Muitas couraças estão sendo retiradas nesses dias de trabalho, não é?

Sim. Deles e minhas também, é preciso revelar. Esse grupo tem uma resistência que não senti em 1.500 crianças de Santa Catarina em grupos de risco – trabalhamos em áreas muito pobres, onde as crianças estão muito ligadas a autoridade e disciplina. Todas as nossas propostas eram aceitas quase que imediatamente. E esse grupo aqui é atrevido. Isso é maravilhoso pra mim. Eu vou criar em algum momento uma condição de eles fazerem tudo o que eles querem em cima do quadro. Primeiro eles precisam conhecer todas as técnicas, então estou dando os limites. Depois que eles tiverem absorvido essa bagagem, aí eles vão ter a liberdade total. De virar cambalhota, pintar com a cabeça, tudo o que eles quiserem no meio da tinta, sabe? Eles têm muito mais determinação e coragem de dizer o que eles querem. Mesmo que não seja uma coisa que agrade a gente. Isso já é um bom ponto. A coragem eles têm. A gente só precisa dirigir essa coragem para o que dê prazer. Essa potencialidade que eles têm pode dar muito prazer e muito sucesso pra eles na vida.



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