‘As quatro estações’ levanta debate sobre agricultura familiar e alimentação livre de agrotóxico

‘As quatro estações’ levanta debate sobre agricultura familiar e alimentação livre de agrotóxico


A proximidade com a natureza, alimentação livre de agrotóxicos e uma relação própria com o tempo. Todas essas questões que envolvem a agricultura familiar agroecológica estão presentes no documentário “As quatro estações”, de Lícia Brancher, lançado no último domingo (1), na Sessão de Curtas Nacionais da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. Realizado pela Contraponto e viabilizado pelo Prêmio Catarinense de Cinema, o curta foi gravado em Santa Rosa de Lima, interior de Santa Catarina, onde o protagonista Luiz Roberto 13 anos, mora com a família.

Outros quatro curtas foram exibidos na sessão: Parecido e diferente, de Felipe Diniz (RS, documentário, 2017), Pedro e o velho Chico, de Renato Gaia, (MG, animação, 2017), Retratos para você, de Pedro Nishi, (SP, documentário, 2017) e a A piscina de Caíque, de Raphael Gustavo da Silva (GO, ficção, 2017, 15). Alteridade e a visibilidade das diferentes possibilidades de viver as infâncias deram a linha dos filmes.

“Todas as crianças das diferentes partes do mundo gostam da mesma coisa: brincar. A sessão nos mostrou que o diferente faz parte da vida. Essa pluralidade nos faz conhecer outras vivências e buscar pontos em comum. Por isso a cultura, as leis de incentivo e editais são importantes para valorizar toda essa diversidade e promover o respeito”, afirmou Luiza.

Debate sobre um novo paradigma

A combinação natural de água, pimenta e alho é efetiva para o controle de pragas nas plantações. Esse conhecimento da agroecologia que o protagonista de “As quatro estações” recebeu dos pais é transmitido por ele no curta. Luiz Roberto assistiu à sessão ao lado dos pais, irmãos e sobrinhos. “Foi uma experiência diferente, fiquei um pouco nervoso em me ver nessa tela tão grande ao lado de um monte de gente me assistindo. Mas achei divertido. A cada filme que terminava eu pensava ‘será que agora é o meu?”, disse ele.

 

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Conectado ao mundo moderno, mas também à natureza que se renova a cada estação, Bê (como o protagonista é conhecido) se divide entre a lida no campo, a escola e as brincadeiras. Em um mundo cada vez mais tecnológico, o garoto ensina o equilíbrio das coisas essenciais. “A ideia nasceu da relação que tenho com o município, quando o Bê (Luiz Roberto) era pequeno. Na agricultura familiar as crianças são muito próximas às atividades dos pais e o Bê sempre se envolveu muito com isso e com os turistas que visitam a propriedade. Nossa ideia é mostrar o universo dele e fazer essa ponte entre o rural e o urbano. E mostrar que as crianças do campo não estão isoladas, hoje com as tecnologias tudo que acontece no mundo é acessível a elas”, disse a diretora.

Durante o bate papo após a sessão algumas pessoas contaram já ter participado do projeto Acolhida na Colônia, do qual a pousada do garoto faz parte, que leva turistas a conhecerem o dia a dia em propriedades de agricultura familiar agroecológica.

“Lembra quando a gente andou de quadriciclo? Também jogamos futebol, você é um bom goleiro?”, disse o garoto Pedro.

“Já fui três vezes à pousada. Conheci o projeto em 2011. Não é só uma hospedagem, é uma experiência. A gente participa de tudo, colhe as plantas”, contou o administrador Maurício Pantaleão.

“É sobre outra forma de fazer turismo, que valoriza a experiência de vida e contato com a natureza”, disse a diretora do curta sobre o projeto Acolhida na Colônia.

“Apreciar o tempo não tem preço. É o melhor de estar no lugar como Doce Encanto”, disse a produtora do documentário, Kátia Klock, sobre a propriedade da família que desenvolve o turismo rural. Segundo ela, o projeto Acolhida na Colônia está ligado à consciência do valor da alimentação orgânica. “O filme faz essa ligação da vivência no campo com o sonho do protagonista de permanecer. Logo nesta semana em que o Projeto de Lei dos Agrotóxicos foi aprovado, a gente se apega em histórias como a dessa família porque tratam de uma grande mudança de paradigma”, disse Kátia.

 

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A agricultora Leda Maria, mãe de Bê, conta que os turistas optam pela pousada em busca de qualidade de vida: ar puro, água limpa e principalmente alimentação saudável. “Plantamos fumo até 94. O fumo era vendido e não sobrava dinheiro para comprar a própria comida. A gente mudou para alimentação orgânica em 95. Depois disso não usamos mais nenhum químico. Hoje plantamos de tudo para a sobrevivência da família e o excedente é vendido. Temos uma produção diversificada com nove culturas. O melado é um dos produtos vendidos em grande quantidade para cooperativas. Os outros são para venda direta a turistas”, relata Leda.

“É muito importante mostrar essa vivência, porque muitas crianças olham os alimentos e pensam que nascem no supermercado. Não sabem o processo pelo qual passam para chegar até às prateleiras”, afirmou Luiza Lins, diretora da Mostra.

A Mostra de Cinema Infantil segue até 8 de julho, no Teatro Governador Pedro Ivo. Toda programação é gratuita.



Texto: Paula Guimarães

Fotos: Carolina Arruda

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