Tarde de curtas em São José


As mais de 200 crianças pegam pipoca na saída do auditório com cadeiras vermelhas, azulejos, tela retrátil branca de três metros por quatro. Acabaram de assistir nove curtas em 55 minutos como parte da Mostra Itinerante no CEM Antonio Francisco Machado, em Forquilinhas, São José.

Elas têm seis e sete anos e sentam para comer no pátio no meio da tarde. Logo começa outra sessão, agora para crianças de oito a dez, que assistem seis curtas também de 55 minutos.

Entre os mais velhos, elogios de sobra para A última reunião dançante, animação gaúcha de Lisandro Santos. O filme traz um adulto descrevendo sua adolescência principalmente a partir de uma festa americana. Vitor gostou porque gosta de festa. Gabriel também. A reportagem, idem. Eles sabem o que é o Atari, o videocassete e o toca-discos que aparecem na animação? Não fazem ideia, nem eles nem outros consultados. Só Gabriel encontrou uma referência: “Meu pai tem um videocassete.”

Vinicius (foto acima), 8 anos, já tende para um filme mais cabeça. “O que eu mais gostei foi o terceiro [curta]”, diz, obrigando o repórter a confessar que não sabe de que filme se trata. “É o do guri que fica em casa sozinho e fala com a mãe por bilhete”, lembra. Sim, uma animação goiana que aposta em cenas lentas sutis e fez o jornalista especular sobre a impaciência das crianças àquela hora, na sala escura, enquanto havia uma área ainda bastante razoável de sol no pátio. “Você também fica sozinho em casa?”, pergunto para Vinícius. “Eu pego a topic, chego e a mãe ainda tá no trabalho, daí fico umas horas sozinho.”

Pelo menos naquele dia, os mais velhos pareceram os mais interessados. Um deles insistia em tentar ler a programação no escuro enquanto a exibição não começava. Houve elogios empolgados para o lírico Souvenirs de verão, que aborda a confusão de uma menina ao sair perguntando sobre o amor. Depois os filmes, disseram, seriam discutidos em salas de aula.

Os mais novos estavam ansiosos para estar ao ar livre. “Tava um pouquinho chato”, ponderou Vitória. Pergunto se ela não gostou de nada, e exceções surgem: o palhaço jogando torta na cara do outro,  monstros coloridos. Também houve risadas de todos os pequenos para a orquestra da stop motion Miado.

Ainda conversando com Vinícius, fico sabendo que um amigo dele, um dos mais velhos, não gostou da sessão. “Aquele ali”, aponta, como se denunciasse alguém. “Mas também, ele não gosta de nada”, acrescenta, e para demonstrar o quanto desconfia do julgamento do amigo, aponta o doguinho de salsicha dupla que ele, Vinícius, estava comendo e conclui: “Nem disso aqui.”

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Fotos: Henrique Pereira

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